Houve aquele momento na minha vida, após o primeiro fim com o Irresistível, em que tive ou quase tive depressão. Minha relação com ele acabou por causa de outra menina, a amizade com minha melhor amiga foi pelo ralo, eu não tinha amigos para sair, fui morar sozinha e meu emprego sugava todas as minhas energias. O toque do despertador todas as manhãs era uma tortura. A aproximação do fim da sexta-feira era angustiante: tinha medo do meu destino solitário naquela noite e no sábado e no domingo. Não sabia o que era pior, durante a semana ou o fim de semana, e além de chorar me perguntava o que eu estava fazendo aqui neste planeta, afinal de contas. Me senti abandonada à própria sorte e comentava com praticamente o único amigo que havia restado que se eu sumisse do mundo ninguém ia nem notar. E não duvido, mesmo.
Sem o Irresistível mergulhei num marasmo digno de nota. Não conhecia ninguém, mas ninguém mesmo quando saía, o que fez todos os outros motivos da minha tristeza ficarem ainda maiores. Eu me lembro que nessa época foi quando comecei a ir a baladas sozinha, e simplesmente não aparecia ninguém que se interessasse por mim, ou alguém por quem eu me interessasse, nada dava certo, ninguém ligava para mim ou combinava comigo. Um horror tremendo.
Eis que um dia por um milagre recebi um convite para ir numa balada com a Amiga, o Namorado da Amiga e a Amiga da Amiga. Como eu não podia me dignar a recusar um convite, lá fui eu, carregando a minha depressão nas costas. Estava lá no meio daquele monte de gente que não interessava por mim e por quem eu não me interessava quando adentra o recinto o amigo do Namorado da Amiga.
(suspiro)
Fui logo apresentada ao moço. Naquela hora ali só estava eu e o Namorado. Conversamos um pouco os três e foi interesse à primeira vista. O moço era boa-pinta, daqueles que você bate o olho e quer para você, e mostrou-se bom de conversa e gente fina. Fora que a perspectiva de conhecer alguém que é amigo de um conhecido é muito mais animadora do que sair à noite sozinha e tentar conhecer gente - uma luz no fim do túnel. Fazia tanto tempo que eu não sentia aquilo, aquele friozinho na barriga, aquela vontade de me aproximar de alguém e a ansiedade da possibilidade de um beijo ou algo mais, que derreti ali na pista.
Logo depois, encontrei a Amiga da Amiga e na mesma hora comentei com ela:
- Você viu o Amigo do Namorado??
- Que amigo?
- Chegou agora há pouco um amigo do Namorado. O cara é de enlouquecer.
Um parêntese: na minha concepção de relação amigas x homens, isso que eu fiz era um aviso claro de "eu vi primeiro, estou interessada e vá procurar outro para você". Amigas já me confirmaram que a regra é essa mesmo.
O regulamento da Amiga da Amiga, entretanto, parecia ser o oposto. Mal comentei sobre o Luz (taí o apelido) e já estava ela, depois de também ser apresentada, num eterno papo com ele. Eterno. Tão longo que percebi o que estava prestes a acontecer e, sem querer presenciar o fato, me retirei para o conforto do meu gelado e vazio lar. Eu não me lembro do que aconteceu comigo exatamente, mas é bem provável que eu tenha chorado muito, de tristeza por ter perdido a chance com ele e de raiva da Amiga da Amiga, aquela vaca.
Dois dias horrorosos depois, a Amiga me manda um SMS me chamando para um fim de domingo no meu bar favorito. Disse que ia com o Namorado, e eu topei, com sempre, sem hesitar. Pelo menos a Vaca não ia estar lá. Mas estava, junto com uma amiga, e do outro lado da mesa, o Luz, além da Amiga e do Namorado, claro. Se a Vaca tinha feito o que fez, eu estava era achando muito engraçado eles não estarem juntos na mesa, pouco me importando para o que tinha acontecido entre eles e me senti ainda no páreo.
Conversa vai, conversa vem, a Vaca logo resolveu ir embora com a amiga, o que foi celebrado por mim: "Já vai tarde". Sobramos os quatro então: eu, o Luz, a Amiga e o Namorado. Conversamos bastante, e pude conhecer melhor o rapaz, o que só me fez ficar ainda mais interessada. Eu só podia deduzir que ele e a Vaca não tinham ficado naquela outra noite (eu e o meu lado mau até podemos imaginar porquê). Lá pelas tantas a Amiga e o Namorado se levantam para partir. Houve um momento de dúvida entre mim e o moço, mas resolvemos ficar mais.
Ele ficou sentado do meu lado numa mesa retangular para quatro pessoas, e eu parecia sentada nas nuvens. Ali pertinho dele eu pude ver bem o seu rosto, o sorriso, o cabelo, os olhos meio esverdeados. Contamos um pouco de tudo um para o outro, como uma típica conversa de pessoas que querem se conhecer e confirmar cada vez mais que combinam e têm muito em comum. Estava sendo uma trégua depois da tempestade por que eu vinha passando.
Como nem tudo o que reluz é ouro, quando fomos nos despedir ele foi simpático mas não pegou meu telefone nem me acompanhou até o carro (já era tarde e o carro dele estava para o outro lado). Percebi que tinha algo ali. Dias depois a Amiga me explicou toda a história:
O Namorado estava há tempos querendo apresentar o Luz para a Vaca, e foi naquela festa que eles se conheceram. Ou seja, por mais que eu tivesse comentado com ela sobre ele, antes mesmo de ela ver quem era o tal do rapaz, eles já estavam "prometidos". Eu era mesmo uma carta fora do baralho naquela época, em todos os aspectos. Eles não ficaram nessa festa mas, apesar de o Luz ter gostado de mim e me achado bonita e blá, blá, blá, ele não quis misturar as coisas e resolveu se concentrar na Vaca, que sob o ponto de vista deles tinha chegado antes de mim. Dancei. Eles saíram durante um tempo e não sei quando acabou.
Se essa história tivesse acontecido recentemente eu ia me abalar por uns vinte minutos e iria logo esquecer tudo. Só que isso rolou num momento em que eu estava fragilizada ao extremo, sozinha, com a auto-estima em frangalhos e carente de homens minimamente a ver comigo. Não foi fácil. A historinha foi breve mas me marcou e perdurou doendo dentro de mim. Veio à tona a mágoa da Amiga, que tinha se afastado no momento em que eu mais precisava de alguém, e se ela não tinha contato comigo, eu também não tinha contado com o Namorado, e não era de mim que ele iria lembrar quando quisesse apresentar alguém para o amigo. Perder uma chance dessas foi inaceitável, duro e apagou-se a única luz em meses. Lá estava eu de novo no túnel escuro. Foi o ó.
Resolvi escrever essa história porque outro dia o Namorado levou o Luz num encontro com uns amigos. Até cheguei a demorar para reconhecê-lo mas foi o Namorado me apresentar o moço - ele não se lembrava que eu já conhecia o Luz - para eu ter certeza, pelo nome, que era ele mesmo. Estava um pouco diferente, sem barba. Ele não se lembrou de mim, vejam que curioso. Não senti quase nada revendo ele, só me trouxe todas essas lembranças de volta. Senti um pouquinho da dor outra vez, mas foi mais pena pelo o que não aconteceu do que sofrimento. Deu mais dó ainda porque conversei bastante com ele esse dia, e de fato o moço é bem interessante. Fiquei pensando no que poderia ter sido e que há três meses eu ainda estava solteiríssima, e teria sido magnífico reencontrá-lo. Uma lástima, mas são definitivamente águas passadas.
Passei uns dias pensando nessa história, e já que finalmente, depois de três anos, eu tinha o contato dele, escrevi contando brevemente o que tinha significado para mim a nossa brevíssima história. Lamentei o que deixou de acontecer, mas tive orgulho de dizer que agora estou em outra fase. Quem está se lamentando agora é ele. Uma pena.